Feijão de Corda

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Entrevista com a antropóloga Hilaine Yaccoub

Ela morou em uma favela carioca para estudar de perto hábitos, práticas e representações do consumo, base da sua linha de pesquisa do doutorado. Hilaine Yaccoub conta para a gente um pouquinho dessa experiência sobre a cultura de consumo e é ela também que abre o calendário de cursos da Feijão de Corda. Confira como pensa a antropóloga que nos concedeu esta entrevista.

Feijão de Corda: Pode nos contar um pouco do que está preparando para a sua apresentação em Salvador?
Hilaine Yaccoub: Estou preparando um conteúdo para quebrar paradigmas em termos que melhor compreender práticas e representações do consumo. O consumo é uma forma de mediação não é um fim em si mesmo, o foco é entender a partir das escolhas dos consumidores e suas respectivas hierarquias de valor o entendimento das relações sociais, suas lógicas de vida, como ele de fato pensa.
FC: Por que escolheu o consumo como linha de estudo?
HY: Porque é uma linha de pesquisa que traduz muitos elementos da vida social, da forma como vivemos. É um caminho para compreender como classificamos bens e pessoas.

FC: Dizem que o povo carioca é muito parecido com o baiano. Você consegue visualizar alguma relação entre Rio e Salvador no que se refere à cultura de consumo?
HY: De uma forma geral muito bom humor na vida e nas expressões de consumo no que tange a valorizar a socialização, o consumo de experiência,  o compartilhamento, consumo é uma prática cultural, cada grupo, baianos e cariocas, tem suas particularidades, mas temos similaridades, mas como boa antropóloga eu precisaria fazer um estudo mais aprofundado para afirmar similaridades e disparidades com muito mais profundidade.

FC: De que forma a antropologia do consumo pode ser uma arma secreta para as empresas?
HY: Os antropólogos não produzem pesquisas de mercado, produzem conhecimento sobre indivíduos. Esse indivíduo é um consumidor. Para que as empresas ou agencias se apropriem disso é necessário muito mais que estatísticas, questionários e tabelas. Temos que acabar com a ideia de que pesquisa é gasto e não investimento. Conhecimento proprietário, conhecer o seu consumidor a ponto de entender como ele pensa, como ele reagiria a uma  comunicação, ou até mesmo como ele o produto é o ideal para realização de um trabalho bem feito. Eu não sei se a antropologia poderia ser chamada de “arma secreta das empresas”, antropólogos já vem atuando em muitas empresas e governo há muito tempo, não é novidade. E as pessoas estão enganadas se estão pensando que a antropologia aplicada é a nova pesquisa de mercado, a antropologia é uma ciência que visa entender a morfologia social da vida de grupos e sociedades, e o consumo é apenas mais uma expressão cultural desses grupos.

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FC: Essa bagagem toda você foi buscar na prática, que aliada ao conhecimento teórico te deu direcionamento para traçar um perfil do consumidor brasileiro. Foi preciso mesmo ir morar na favela para estudar o mercado? Você ainda mora na Comunidade Barreira do Vasco?

HY: Eu fui para uma favela para entender como as pessoas vivem naquele lugar, como tem acesso e consomem bens e serviços públicos e privados (agua, luz, tv a cabo, internet) o objetivo é fazer um trabalho de campo para minha tese de doutoramento que está sendo finalizado agora em 2014. De todo modo, todo antropólogo precisa da sua aventura para experimentar e vivenciar situações que somadas a sua bagagem teórica trará interpretações mais relevantes e assertivas sobre hábitos, práticas e representações de consumo de um dado grupo. Eu estou traçando o perfil de um dado grupo na favela Barreira do Vasco e pra isso precisei entender como se organizam social e economicamente, como festejam, como moram, quais os critérios de valor possuem, e por ai vai. Eu não moro mais na favela, mas possuo uma casa que virou meu escritório, e permanecerei na localidade ate março do ano que vem.

FC: Um recente estudo indicou que a Classe C representa 54% da população brasileira e a região Nordeste vem assumindo os rankings com uma população crescente de consumidores. Então é preciso um olhar mais aprofundado para esses públicos que estão cada vez mais exigente e atento, não é isso?

HY: A chamada classe C não é um grupo só, faz parte de vários grupos que possuem diferentes critérios de valor, uns investem mais em educação dos filhos, outros investem mais no conforto doméstico, outros investem em viagens, ser classe média, ou classe C, significa pensar como classe média. Todo estudo de classe social precisa ser cuidado e bem mais criterioso, não é através de renda familiar ou posse de bens de consumo que poderemos traçar perfis, porque dentro de um dado grupo temos indivíduos e famílias que adotam diferentes escolhas, não que uns sejam melhores que outros, mas são apenas diferentes, então fica muito complicado generalizar.?O ideal é somar as pesquisas quantitativas e qualitativas, uma traçando a perfil sociodemográfico e o outro a representação social desses diferentes grupos, procurando entender os porquês ao invés de se preocupar apenas com os “quantos”.

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