Feijão de Corda

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Vamos criar um estoque de milagres?

Postado por em dez 10, 2015 em Cursos, Formação Criativa, Literatura | Um Comentário
Necessidade! Foto: Marcelo Gandra

Necessidade! Foto: Marcelo Gandra

Que tal enxergar o seu dia a dia com mais lirismo e fantasia? Para isso nem é preciso tanto – basta um caderno e uma caneta.

No clássico romance “Milagrário Pessoal”, o escritor angolano José Eduardo Agualusa (que, cá entre nós, merece uma apresentação à parte) nos apresenta um professor aposentado, angolano mas exilado em Lisboa, já octogenário, e que possui uma curiosa mania: a de colecionar pequenos milagres. Munido de um diário, vai anotando os fatos extraordinários que acontecem no seu dia a dia, que poucas pessoas percebem ou pouca importância dão. Trata-se do seu ‘milagrário pessoal’.

Olha só um exemplo:

Quinta-feira, 1 de junho de 2006

Esta manhã, assegurou-me Gina, uma lagartixa dançou para ela. Quis saber que ritmos entusiasmam as lagartixas. Gina ensaiou uns passos. Pareceu-me uma rumba.

Domingo, 6 de julho de 2008

Cruzou-se comigo, no Chiado, uma menina dos seus dezoito anos. Ruiva, muito ruiva mesmo, a pele atormentada por um enxame de sardas. Ao passar pousou nos meus olhos de velho, já um tanto cansados, o verde húmido dos seus olhos. Então sorriu e disse com um luminoso sotaque carioca: “Aproveite o sol. Um dia destes volto para buscar você.” Ocorreu-me primeiro que fosse a Morte. Depois pensei melhor: tão bonita, tão carioca, deve ser antes a ressureição.

Na última Oficina de Escrita Criativa Tráfego de Ideias da Feijão de Corda, a jornalista e professora Isa Lorena propôs que cada participante criasse, durante a semana, o seu milagrário pessoal. Todo mundo saiu da oficina munido de moleskine e lápis, pronto para anotar os eventos fantásticos que já foram ou seriam testemunhados a partir dali.

Eu não fiz diferente. Segue um trecho do meu (tímido) diário de milagres:

Quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Estávamos eu, Juliana e um grupo de crianças, acompanhadas de uma senhora, descendo escadarias de 4 km em plena montanha. Joelho doía, crianças reclamavam. A noite dava seus primeiros sinais e era imperativo que saíssemos dali. Eis que surge, do meio do mato e do meio do nada, um pastor alemão. Pelo bege, focinho preto, ele era enorme e ofegava tanto quanto nosotros em busca de água. Tomou a frente do grupo, desceu um lance de escadas e parou. Só voltou a caminhar quando o último integrante havia passado por ele. Novamente passou por todos e esperou. Repetiu esse ritual, sem reclamar, até que a escadaria acabasse. Depois, entrou no mato e sumiu de vez. A senhora, peruana e muito grata, o apelidou de Lobito.

Entendeu como é bom ter o seu diário de milagres? A vida é cheia desses detalhes fantásticos que, na correria do dia a dia, acabam passando despercebidos ou se perdem no tempo. Lembrar e anotar tudo vai te fazer enxergar esses pequenos eventos de uma outra maneira. Além, é claro, de desenvolver a sua escrita. Então, que tal criar o seu milagrário pessoal? Como disse, não precisa muito: basta um caderno e uma caneta.

Dê corda à imaginação!

1 Comentário

  1. Maria Jose
    11 de dezembro de 2015

    Adorei a sugestao. Vou adotar o meu milagrario. Essa perspectiva, traz um olhar mais singelo e apurado para pequenas coisas, porem “grandes”, que ficam despercebidas.
    Gratidao!

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